
BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (Millôr Fernandes)
Era uma vez uma rainha má que tinha uma enteada que era muito boa. Ela nem reparava nisso, mas o rei cada dia reparava melhor, na medida em que a enteada ia se enteando mais e mais, um seiozinho hoje, outro seiozinho amanhã, uma coxinha ficando grossa esta semana, um olhinho brilhando mais no outro mês.
A rainha, que não via a enteada botando o corpo porque era uma desgraçada hedonista, com um superego maior do que a nossa inflação de três dígitos, possuía um espelho muito raro: ele falava. Falava, previa, informava, aconselhava. Não eram bons conselhos, nem informações sempre corretas, nem previsões confiáveis - eu creio até que o espelho era uma televisão primitiva, mas já com os mesmos defeitos - porém, a rainha acreditava; e foi por acreditar que um dia perguntou: "Diz aí batuta, tem alguém no mundo mais gostosa que a mamãe aqui?" O espelho antes de responder, contra, perguntou: "Olha lá, ô cara, é pra dizer mesmo ou você quer apenas uma uma resposta tipo puxa-saco, de espelho yes-man, modelo Brasília?" "Não, respondeu a rainha "pode dizer o que você pensa mesmo, que eu não retiro meu patrocínio, continuo mandando limpar você todo dia com Bombril", "Bom", voltou o espelho "a minha concessão é a título precário, você sabe. Mas escuta ae: tua enteada, em quem você nem repara pois está cega pela vaidade, passa o dia inteiro se refletindo em mim, tua enteada está que é uma cocadona, e eu, se não fosse espelho, trocva trÊs de você por uma dela. Aliás, o teu marido já fez a ela proposta bem melhor que essa. Toma cuidado rainha, ou você não emplaca 1655."
Imediatamente a rainha chamou um sequestrador profissional pra dar sumiço na enteada que, a essa altura, já era campeã de windsurfe, pois mesmo em dia sem vento tinha uma porção de bonitões que ficavam na praia soprando só pra ela praticar. O sequestrador levou Branca de Neve para uma floresta distante, mandou que ela tirasse a roupa pra acertar seu coração melhor, mas, quando Branca ficou nua e ele viu tanta pureza, preferiu matar um urso que ia passando e vender as fotografias dela pra Playboy. Enquanto o sequestrador voltava e entregava o coração do urso à rainha, que o achou enorme, "do tamanho da bondade dela", explicou o sequestrador, Branca encontrava refúgio fácil, na casa do s famosos "Sete Anão", pequeno conjunto musical de analfabetos que moravam mais ou menos por ali assim. Naturalmente eles verificaram primeiro se ela sabia lavar, cozinhar, costurar, pregar botões e ir para a cana e , obtendo respostas positivas, deram-lhe um lugar condigno no fundo do quintal.
A rainha, enquanto isso, voltava ao espelho: "Como é que é, o chato de galochas, e agora, existe ainda mulher-objeto mais apetecível do que eu?". "É só você olhar o último número da Playboy", respondeu o espelho, "no qual seu marido está vidrado ali na poltrona e vai descobrir que foi passada pra trasíssimo".
Bem, a rainha ainda tentou liquidar a Branca com uma maçã envenenada, um pente também envenenado - como é que se envenena um pente? Até amndou um primo bonitão ver se conquistava a moça, mas nada adiantou. O tempo foi passando, ela foi envelhecendo e acabou desistindo no dia em que o rei disse que, ou ela parava com aquela mania de perseguição - ela a perseguidora - ou ele promovia eleições diretas no reino. Enquanto isso, como o tempo também passava do outro lado, Branca de Neve já tinha se transformado num bagulho de tanto lavar, cozinhar, passar e dar pros Anão exploradores e machistas.
Mas, pouco antes de morrer, a rainha ainda olhou melancolicamente o espelho cheio de poeira e perguntou: "ô meu velho, e agora, como é que é?" E o espelho respondeu: "Ohla aiqu rAinha, Vcoê argoa stA um baGaço De dOEr, pRoém STá muito melhOr do Qeu a Bcrana ed eNve"; e ela teve muita dificuldade de entender porque há tempos, de raiva, tinha partido o espelho e ele agora estava todo remendado.
por JULIANA NUNES